domingo, 28 de maio de 2017


A decisão


Estimado leitor, tal como enunciei na anterior publicação, quando se tem um cargo de topo, por vezes, existe a necessidade de decidir situações embora não se tenha conhecimentos técnicos específicos da área. Embora a nossa educação tenha tentado incutir a regra de só decidir pela certeza, hoje adultos sabemos que temos de decidir sem ter todas as peças do puzzle e com base em conjeturas.


V. 19 – Cvey Mhentsi pensava três vezes antes de agir. Ouvindo falar disso, disse o Mestre: Duas vezes já bastava”.
Confúcio, Analectos,
Analisar demais leva à indecisão, pelo que é algo de evitar. Mas também não refletir:
 “a ignorância gera atrevimento, mas a reflexão torna-nos prudentes”
Tucídides, citado por Luciano em Carta a Nigrino

Esta publicação com base num caso prático enuncia as regras para a “decisão política”
"Não sendo passíveis de racionalização nem sujeitas a cálculo científico, as decisões significativas na vida prática consistem na escolha de um inimigo, num projeto histórico-vital ou na aceitação de princípios.”
Habermas, Teoria Analítica da Ciência e Dialética
Toda e qualquer decisão enquadra-se no condicionamento do futuro; na concretização de um objetivo(s): “o homem deve agir em vista do fim, sendo ele racional e tendo, portanto, domínio sobre os seus atos pela razão prática e pela vontade”.
Dizem que o individuo (que não tem perfeito domínio da sua Vontade) para decidir recebe do Ambiente (amigos, histórico, sociedade, etc…) uma série de informações que transforma em desejos (coisas que deseja que aconteça) e medos (coisas que deseja evitar). A decisão desse individuo é determinar uma ação ou conjunto de ações que faça (ou façam) que todos os desejos ocorram e que os medos sejam evitados. Em face do exposto:
·         Os indivíduos não se decidem por um só desejo;
·         O conjunto de ações não é linear pois existem muitas condições a satisfazer;
·         As ações desses indivíduos são pouco previsíveis pois os desejos e medos mudam consoante o estado anímico e a informação recebida recentemente.
Uma das regras essenciais da “decisão” é: “a melhor pessoa para decidir sobre um dado assunto, regra geral, é quem tem a incumbência de tomar essa decisão” (pois ele é que está em posição de conhecer as informações relevantes, constrangimentos, valores pessoais, e aceitabilidade pessoal dos aspetos positivos e negativos que da mesma resultem).
Tal como Locke admito que é suficiente para “bem decidir” estar certo de não se arrepender no futuro:
É suficiente que eles tenham tido uma vez com cuidado e justeza absorvido o fato tanto quanto puderam, e que tenham buscado todos os particulares, que pudessem imaginar que forneceriam alguma luz à questão; e, com sua mais avançada habilidade, somaram as causas de toda a evidência, e deste modo, tendo urna vez descoberto para que lado a probabilidade se manifestava, após investigação tão complexa e exata como podem realizar, estabelecem a conclusão em suas memórias como uma verdade que descobriram; e para o futuro permanecem satisfeitos com o testemunho de suas memórias, que esta opinião que, pelas provas que uma vez viram disto, merece um tal grau de seu assentimento, segundo o que podem oferecer.
Locke, Ensaio sobre o entendimento humano

As decisões devem ser “naturais”, isto é, devem fazer parte do conjunto de decisões anteriores e posteriores (i.e., coerente) e ser compatíveis com a alma do decisor (i.e., ser verdadeiras). Isto significa que a melhor decisão para dois indivíduos com personalidades diferentes vivendo uma situação semelhante muito provavelmente é diferente.
A razão de aconselhar esta naturalidade é para que os outros indivíduos confiem no decisor (poucos confiam em indivíduos imprevisíveis), e para que a decisão não seja “minada” pelo próprio decisor nas decisões subsequentes[i].

Os antigos diziam: “Havendo razões para aceitar, e razões para rejeitar, então a proposta deverá ser rejeitada”.
Marco Aurélio (in Meditações) defende:
Deves estar sempre pronto para estas duas decisões: primeira, praticar só e precisamente aquilo que a razão do trono e da lei inspira para o bem da Humanidade; segunda, mudar de orientação, se alguém houver que te corrija e dissuada.”

Montaigne defende a decisão baseada no dever:
No que faço, vejo apenas o que me cabe fazer, e não medito de antemão sobre as consequências e resultados que me possam atingir. Meus atos visam a determinado objetivo: acerte ou não terei feito o possível”.
Montaigne, Ensaios 3
Reitera -se a necessidade de tempo para tomar uma boa decisão, e que este tempo advém de uma boa escolha das tarefas/ações que deverão ser executadas pelo Senciente e sua organização.

O caso prático

O Secretário Regional da SRAPE tinha que decidir se leva a obra da Ribeira da Madalena do Mar para aprovação do Conselho do Governo.
Tal como dito anteriormente as decisões não são feitas no “ar”; têm por base um conjunto de constrangimentos e oportunidades, i.e., o enquadramento. O enquadramento é:
·         A imagem pública do secretário regional da SRAPE anda pelas ruas da amargura. O seu peso político é pior que nulo: é negativo!
·         Existem acusações públicas que este secretário anda a fazer obras que para nada servem;
·         A utilidade da obra da Ribeira da Madalena do Mar não está demonstrada nem a ele nem à população;
·         A imagem pública do Presidente do GR está altamente danificada;
·         Existem eleições a curto-prazo que podem acabar com a legitimidade política e com os últimos apoios do Presidente do Governo Regional.
·         Existem duas maneiras do Presidente recuperar a imagem: as pessoas começarem a ganhar mais dinheiro, ou demitindo alguns secretários regionais e culpá-los de tudo. A primeira é praticamente impossível, mesmo que houvessem condições internacionais para isso.
·         Não se conhece outra fonte de rendimento da família nuclear do Presidente que não a política.
·         A melhor maneira do Presidente se resguardar de um eventual mau resultado nas eleições é fazendo uma remodelação governamental poucos dias antes das eleições. Nesse caso, neste momento interessa ao Presidente que o Secretário: tome decisões de dúbia legalidade, que lhe cause má imagem, que persiga funcionários, e se possível, traia apoiantes[ii].
·         A taxa de desemprego é elevada, e esta obra criará alguns empregos temporários.

Os Oito passos da decisão segundo “Governance in the 21st Century”[iii]:
1.     O decisor está disposto a ter responsabilidade pela decisão.
SM se não quisesse ter essa responsabilidade, teria que enviar aos departamentos de Hidráulica que tutela para decidirem por ele.
2.     O decisor analisa o seu conhecimento, compreensão e sensibilidade atual sobre as questões importantes do assunto, de modo a alocar a atenção sobre as questões prioritárias.
As questões prioritárias são: 1) a obra é mesmo necessária? 2) o Presidente tenciona demiti-lo e culpá-lo de tudo? 3) Existem investimentos alternativos?.
3.     O decisor aprecia o assunto tanto sua evolução histórica como a sua evolução futura. A apreciação também tem em conta os seus próprios interesses, carácter e compromissos e os dos outros. Com estes últimos dados o decisor projeta os cenários futuros possíveis.
O que é que acontecerá a SM se ele decidir num sentido? e se for noutro? Se o próximo secretário regional decidir como ele decidiu (i.e., não inverter as politicas), será que podem culpá-lo de algo? Se for assim, interessaria a SM não decidir. Vide enquadramento.
4.     O decisor seleciona contextualmente os princípios, normas, estratégias e estilos de argumentação para o contexto social da decisão a tomar.
Se SM mandar a obra a Conselho de Governo, o que é que vai dizer à população? O que é que a população vai perceber de sua argumentação? E no caso contrário?
5.     O decisor distancia-se dos seus interesses de curto prazo, das pressões recebidas, e das emoções (suas e dos outros).
SM imagina que é um observador que aprecia esta decisão daqui a anos. O que é que esse observador imparcial irá pensar?
6.     O decisor pesa os prós e contras de diferentes riscos, normas, solidariedades, restrições e compromissos rivais. O momento em que é apreciado cada um destes itens afeta o reconhecimento e sensibilidade do valor de cada um.
O que é que SM prometeu sobre as obras: à população, ao Presidente, aos empreiteiros?
7.     O decisor deve aceitar que o assunto em causa termine, chegando a uma conclusão e ser firme sobre ela. Na minha opinião deve procrastinar[iv] (i.e., estudar e tomar a decisão no último instante razoável, desde que esse instante esteja definido) ou criar a urgência de uma decisão (para em seguida procrastinar).
“É coisa rara, com efeito, ser capaz de prorrogar os juízos.”
Espinoza, Tratado Político, VII

8.     O decisor volta a analisar se está disposto a ter responsabilidade pela decisão: aceitando as consequências da sua decisão, incluindo os prós e contras, os custos da oportunidade, e aceitar as consequências negativas previsíveis como o preço a pagar pelos valores e/ou oportunidades a que o decisor adere.
O que é o leitor aconselharia a SM?
SM levou a Conselho de Governo, e o investimento foi aprovado.




Eu, O Santo



[i] O chefe tolerante impõe a política tolerância zero… e depois finge que não vê as prevaricações de seus subordinados. Pior, toda a punição será vista e sentida como injusta pelos subordinados; uma perseguição sem causas.
[ii] A outra Secretária a substituir é S. Prada, se possível nas mesmas condições. Assim, por estar conotado com a referida senhora, e não criticar publicamente os seus erros, a eventualidade do dr. José Prada chegar a um cargo superior do que tem passa a ser nula. (em politica pura e dura, não interessa para nada se a ligação entre eles é simplesmente uma eventual mera afinidade familiar)
O passo seguinte da estratégia é enxovalhar os demitidos de modo a provocar eleições antecipadas. No final, conota-se os enxovalhados com a Oposição despreparada para eleições.
E o resto é o normal: põe-se o Armas durante 6 meses antes das eleições, arranja-se um avião cargueiro durante uns meses, os apoios das viagens passam a ser dados diretamente à transportadora, vende-se umas laranjas a Israel, exporta-se aguardente para Cuba, convida-se políticos estrangeiros, incluindo da Coreia do Norte para dizerem qu  a Madeira é um paraíso, gasta-se mais uns milhares em indivíduos que façam filmes e publiquem comentários a alegar que a Madeira é melhor que o paraíso, dá-se prémios e condecorações a torto e a direito, cria-se uns perfis falsos que digam que os políticos são todos iguais, etc…
[iii] Adaptado de: “Governing by Technique: Judgement and the Prospects for Governance of and with Technology”, “Governance in the 21st Century” OCDE - 2001
[iv] Procrastinar é a arte de tomar uma decisão ou executar uma ação no último momento possível e com alguma (pouca) margem de tempo. Exemplo: è pedido um parecer. O tempo para responder é 20 dias. Se se decidir/emitir parecer logo no primeiro, qualquer informação que seja recebida após a decisão terá que ser ignorada. Essa informação poderá alterar o “acerto” da decisão/parecer. Fonte: www.youtube.com, Royal Society of Arts, RSA

7 comentários:

Anónimo disse...

É assim Santo. Você é chato como a potassa, disso não há dúvidas.
No entanto, você é inteligente, argumenta bem, e, verbaliza de forma eloquente.
Mas, só se interessa com as suas pequenas questões, com as coisinhas que lhe dizem respeito.
No dia que tiver uma visão global, até se torna interessante.
Até lá, você é mesmo chato.

Anónimo disse...

Santo,

Só pela chatice, eu decidia logo contra si.

(Outra vez)

Anónimo disse...

está encontrada a razão para existirem chatos , não é por serem mais ou menos inteligentes , é porque pura e simplesmente são CHATOS

Anónimo disse...

Santo,

Não é o Sergio Marques quem precisa de aconselhamento. É você. E quanto mais rápido, melhor para si.

Renovadinhos disse...

O ''Tó Pó'' está em estado de desespero e imagina-se porquê. Não são apenas os insucessos profissionais que abalam a cabeça do arruaceiro.

Com uma vida feita de enganos em todas as frentes, tem sido um instrumento ao serviço da vingança e do ressabiamento dos que mandam na folha onde continua a ''chafurdar''.

Será dali que ainda vem algum para alimentar o seus vícios.

O ''criatura'' foi em tempos submetida aos bafos de aguardente e vinho seco subsidiados pelo governo para evitar que certos negócios não dessem para o torto, e então é aquilo que hoje se vê.

João Barreto disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Eu, O Santo disse...

Eu falo daquilo que conheço.
Não sou adepto de grandes questões. Penso que as decisões são de pessoas para beneficiar ou prejudicar pessoas.
Em linguagem filosófica é: o homem age-com-respeito-a-fins, sendo que a esmagadora maioria decide com vista a objetivos palpáveis, especialmente dinheiro, domínio e sexo.

Acredito tal como o que percebi de Habermas que já não há ideologia.