terça-feira, 16 de maio de 2017


Há desempregados que são abandonados 
como cachorros


Vitorino Seixas


O presidente do governo regional escreveu um artigo onde afirma que “Há um novo clima de confiança. Um aumento substancial do investimento e do consumo. E é justamente por isso que o desemprego na RAM está ao nível mais baixo desde 2011 -11%.” ¹.

Ao ler esta afirmação, que espelha bem o otimismo do Blue Establishment, lembrei-me de uma afirmação de Miguel Albuquerque de um pessimismo desolador: “Nós temos que ter a coragem também de dizer que muitas vezes há pessoas que não têm qualquer sentido de responsabilidade e que abandonam os seus idosos nos hospitais como fossem cachorros, desculpe que lhe diga, e inclusivamente tenho conhecimento de determinadas pessoas que deixaram os idosos no hospital e foram passar férias para o continente e para Canárias. E isto é inaceitável” ².

Estou totalmente de acordo. Mas, também é inaceitável que quem denuncia fatos tão graves não identifique os prevaricadores, nem anuncie as medidas que tomou em relação às pessoas que disse ter conhecimento de terem abandonado idosos nos hospitais para irem passar férias. Se a acusação tivesse sido feita pela oposição, muito provavelmente, a reação do governo teria sido exigir a identificação dos responsáveis pelo abandono dos idosos.

Voltando à afirmação inicial sobre a redução do desemprego regional, convém dizer, desde logo, que se trata de pura ficção estatística. A vida de muitos desempregados, por detrás das fantasiosas estatísticas oficiais, continua a ser muito dolorosa. Se a taxa de desemprego anunciada fosse verdadeira não seria necessário o Banco Alimentar Contra a Fome “ajudar 10.000 pessoas com carências comprovadas” ³, nem Rubina Leal reivindicar “não estou a pedir mais 16 milhões, … estou a pedir porque as instituições também pedem e precisam desse apoio” ³.

Passando à analise do abandono, vejamos o que se passa com três grupos de desempregados. O primeiro grupo é o dos 13.108 desempregados que não são beneficiários de prestações de desemprego, quase o dobro dos 6.863 beneficiários. Por outras palavras, 66% do total de desempregados na Madeira não recebeu, em março de 2017, quaisquer subsídios ou outras prestações de desemprego. Apesar desta elevadíssima taxa ser suficiente para demonstrar que a esmagadora maioria dos desempregados está abandonada, se juntarmos à análise o facto do valor médio mensal do subsídio processado por beneficiário ser de 425€, ficamos com uma ideia clara da dimensão do abandono. Na prática, mesmo os que recebem prestações de desemprego também estão numa situação de abandono, condenados a viver com graves carências numa situação de pobreza e de exclusão social.

O segundo grupo é o dos desempregados de muito longa duração. A análise do mapa “Financiamento por Programa de Emprego” ⁵ permite constatar que 91,3% dos apoios financeiros vão para os programas de “Incentivo à criação de postos de trabalho”, “Programas Ocupacionais”, “Apoio à criação do próprio emprego e criação de empresas” e “Estágios Profissionais”, cujos beneficiários não são os desempregados mais desfavorecidos face ao mercado de trabalho. Basta dizer que o programa “Reativar” destinado aos desempregados de muito longa duração dispõe, apenas, de 2,8% do financiamento total. Se tivermos em consideração que se estima que a Madeira tem cerca de 7.648 desempregados há mais de 24 meses (38,3%) fica claro que os desempregados de muito longa duração foram abandonados pelo governo regional. Em termos comparativos, de referir que o programa de Estágios Profissionais que se destina a jovens dos 25 aos 35 anos com nível de qualificação 4 ou superior, dispõe de 13,1% do financiamento total. Se tivermos em consideração que, em março de 2017, havia 4.251 jovens desempregados com idade para beneficiar dos estágios profissionais, temos uma ideia das prioridades do governo regional: os apoios vão para os desempregados com menos idade e mais qualificações (>= nível 4) em detrimento dos desempregados com mais idade e menos qualificações (níveis 1 e 2).

O terceiro grupo é o dos desempregados que não possuem as competências necessárias para os empregos que existem, ou seja, que estão em situação de desemprego estrutural. Se tivermos em consideração que a taxa de desemprego estrutural foi de 11,7% em 2015, há cerca de 2.340 desempregados que precisam de uma nova qualificação para conseguirem um emprego. No entanto, se analisarmos os “Programas de Emprego do IEM” ⁴ não existe nenhum programa para apoiar a requalificação das pessoas em situação de desemprego estrutural, as quais estão, de facto, abandonadas e totalmente desprotegidas num mercado de trabalho cada vez mais exigente em termos de qualificações e competências.

Parafraseando Miguel Albuquerque, é lícito afirmar que, na Madeira, há milhares de desempregados que foram abandonados como se fossem cachorros. Mas, neste caso de abandono, os responsáveis são bem conhecidos de todos.

PS: Quando o desemprego sobe, Rubina Leal sacode a água do capote “Não é o governo que cria emprego, são as empresas” ⁶. Quando o desemprego desce, Miguel Albuquerque promete prosperidade e “que o desemprego é para continuar a reduzir” ⁷.

5 comentários:

Anónimo disse...

Este senhor não para na sua ambição de conseguir um "tacho". Esteve coladinho ao PSD e a participar em várias iniciativas promovidas pelo mesmo. Na altura nunca fez as "análises" que agora faz, nunca chegou às mesmas conclusões, apesar dos números ainda serem piores

Como não lhe deram o lugar que ele queria, desata agora a "ler" os números da maneira que lhe convém, para dar um ar de especialista, à espera de um convite.

Que tal se contasse aos seus leitores, as razões de não ter ficado nos lugares onde já trabalhou ? Seria interessante.

Anónimo disse...

Incrível como este PSD anda com palas nos olhos. Vão lançando estatísticas à toa e o povo engole. A Madeira nunca esteve tão mal, a todos os níveis! O que se passa na saúde, é absolutamente inconcebível! Nunca existiu um gajo com tanta falta de noção da realidade. Não sei se é uma característica própria de quem na vida nunca precisou de se esforçar para conseguir as coisas, ou se é daquelas merdas que o gajo consome, mas este indivíduo é um perigo para a região, um perigoso incompetente que coloca a vida da população em xeque, como aconteceu nos incêndios do Verão passado.
"A unidade de um homem é tal, que basta um gesto para revelar um homem." Miguel Torga

Anónimo disse...

Já agora conte-nos as razões por ele não ter ficado nos lugares.
Porque o artigo está fundamentado e, infelizmente, realista.

Anónimo disse...

Como sempre quem publica algo contra os laranjas é assediado na praça pública. Normalmente é chamado de "ressabiado" ou "tachista".
Isto não pode continuar assim. Na minha opinião de leigo, a repetição sistemática deste tipo de criticas pessoais (e não contra o conteúdo das publicações) é assédio/perseguição.
Lembro que a Constituição da República Portuguesa declara:
Artigo 26.º
Outros direitos pessoais
1. A todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à protecção legal contra quaisquer formas de discriminação.

Artigo 37.º
Liberdade de expressão e informação
1. Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.
2. O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura.
3. As infracções cometidas no exercício destes direitos ficam submetidas aos princípios gerais de direito criminal ou do ilícito de mera ordenação social, sendo a sua apreciação respectivamente da competência dos tribunais judiciais ou de entidade administrativa independente, nos termos da lei.
4. A todas as pessoas, singulares ou colectivas, é assegurado, em condições de igualdade e eficácia, o direito de resposta e de rectificação, bem como o direito a indemnização pelos danos sofridos.

Anónimo disse...

Muito bem. Nao diria melhor.